Em 1967, um menino passa pela tragédia de perder os seus pais em um acidente de carro. Amparado pela sua avó materna ele acaba indo morar no Alabama, interior dos Estados Unidos e, aos poucos, ambos começam a fortalecer os seus laços, até que a ameaça de uma bruxa faz com que eles precisem fugir para um grande hotel da região. O que a criança e a avó não esperavam é que, talvez, eles tenham ido parar dentro de um perigo maior do que o que eles estavam fugindo.
Robert Zemeckis, um dos maiores e mais clássicos diretores de Hollywood, nos traz a nova versão de Convenção das Bruxas (The Witches, 2020). Inspirado no livro de Roald Dahl, Zemeckis tinha a missão de honrar o material fonte, como também de criar uma obra do mesmo nível, ou até superar, a primeira adaptação para o cinema, de 1990, que tornou-se um clássico cult e popular.
O texto do longa feito à seis mãos pelo próprio Zemeckis, junto com Kenya Barris e Guillermo del Toro, é conduzido sem grandes surpresas ou plot twists. De forma linear, ele começa até bem ao mudar a etnia da criança e da avó, e com isso, traz um positivo vislumbre dos cidadãos negros e de sua cultura, porém esse começo é lento e arrastado. Os dois atos seguintes são até mais ágeis e a trama se intensifica e cresce bem nos seus conflitos, mas a apatia e falta de momentos grandiosos afeta demais o clímax da obra que, mesmo com enxutos 106 minutos, ou 100 minutos ao retirar os créditos finais, é sempre devagar e sem energia. Tudo isso recheado de diálogos artificiais e monólogos vergonhosos.
As escolhas visuais do filme são intencionalmente exageradas. Isso é perceptível por todos os cenários do longa utilizarem cores super saturadas com muitos elementos em cena, sempre sobrecarregando o espectador de informação visual. A fotografia de Don Burgess apela constantemente para o hiperclose, tentando acentuar o sentimentos e ações. O figurino criado por Joanna Johnston também reflete isso, com roupas cheias de informações e detalhes, também usando cores para dar identidade visual, como todas as bruxas do filme usaram cores secundarias e a criança e a avó usaram azul e amarelo, respectivamente. Com isso, o longa perde em sutileza, saindo do campo sombrio e gótico e caindo quase para o kistch e camp. Até a trilha sonora do Alan Silvestri, que é até singela em algumas faixas, também abraça esse exagero na maioria das vezes. Os efeitos especiais são funcionais mas, por diversas vezes, me fizeram sair do filme ao perceber que aquelas figuras eram plásticas demais.
Octavia Spencer é disparada a melhor parte do filme. Ela sabe ser amorosa e decidida nas horas certas, mesmo quando o roteiro não a ajuda. Chris Rock é divertido nas suas inserções como narrador. As crianças do filme são apenas operantes, com Jahzir Bruno se saindo melhor quando está fazendo apenas a voz do que quando precisa usar de expressões corporais. Stanley Tucci veio para garantir o cheque do mês e a performance de Anne Hathaway é exagerada ao extremo, numa escolha de sotaque que mira no cômico e no overacting a fim de criar uma vilã marcante, mas que fica só no cômico mesmo.
Robert Zemeckis fez muita coisa boa na sua carreira. Esse não é o caso na sua versão de Convenção das Bruxas. Essa é uma obra que tem medo. Medo de abraçar o fantástico, medo de causar medo, medo de criar antagonistas assustadores. Todo o exagero tornaram o filme insipido, incolor e inodoro como um filme fraco e sem personalidade. Talvez agrade um público menos exigente, mas é uma obra fraca e um desperdício generalizado.
Nascido em Fortaleza, trabalha profissionalmente com quadrinhos e ilustração desde 2005, quando começou a vender seus trabalhos pela Internet em sites de vendas como o E-Bay. Trabalhou para editoras norte-americanas, ministrou aulas de desenho e quadrinhos, e vem participando de diversos eventos nos Artists’ Alleys e em painéis sobre cultura pop, quadrinhos e artigos/notícias para o site do Dínamo Studios, do artista Daniel HDR.